sexta-feira, 24 de maio de 2019
Para especialistas,
acordo entre empresas concretizam ameaça à defesa e soberania do país
Boeing e Embraer
anunciaram, nesta quinta-feira (23), que o setor da estatal brasileira
responsável pela aviação comercial agora chama-se Boeing Brasil - Commercial. A
mudança de nome é oficializada após dois anos de tratativas e acordos entre a
corporação norte-americana e a empresa brasileira, que afirmam estar
estabelecendo uma “joint venture”, termo utilizado em referência
a empreendimentos conjuntos e parcerias comerciais.
Porém, a partir desse
novo acordo, a “velha” Embraer terá apenas 20% de sua própria área comercial,
enquanto a Boeing controlará os 80% restante.A compra, aprovada no início do
ano pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL), custou cerca de US$ 4,2 bilhões para
a empresa estrangeira. A previsão é que o negócio seja concluído até o final
deste ano, com aprovações em órgãos regulatórios no Brasil e no exterior.
As negociações que
poderiam levar a uma suposta aliança entre as empresas é amplamente
criticada por especialistas na área. Para Marcos José Barbieri Ferreira,
coordenador do Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa
da Unicamp, a troca de nome deixa claro que na verdade a divisão de aviação
comercial da estatal está sendo vendida.
Barbieri explica que a
Embraer se divide em três grandes áreas: comercial, executiva e
defesa. E que, agora, abre mão de seu carro chefe.
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| CERCA DE US$ 4,2 BILHÕES O pesquisador acrescenta que o desenvolvimento tecnológico das outras áreas também está... |
“A área comercial é a
principal área, a mais importante. Representa aproximadamente 55%, 60% do
faturamento. É mais da metade da receita da empresa e cerca de 90% do lucro. O
que vai sobrar? Uma empresa que representa pouco mais de 40% da receita e 10%
do lucro. É um desmonte da empresa. Pior ainda: transfere-se para Boeing as
principais unidades produtivas, as mais avançadas”, diz, em referência à base
da então estatal na Faria Lima, em São José dos Campos, e outras duas
unidades em Portugal.
De acordo com dados
oficiais da empresa, o faturamento da Embraer teve, em 2017, participação de
16% do setor de defesa e 26% da aviação executiva. Já a parte de produção de
aviões comerciais foi responsável por 58% dos lucros.
Prejuízo ao
desenvolvimento tecnológico
O pesquisador acrescenta
que o desenvolvimento tecnológico das outras áreas também está comprometido já
que ao vender a divisão comercial para a Boeing, há um desmantelamento na
produção das outras áreas, que se desenvolvem simultaneamente, a partir das mesmas
pesquisas e laboratórios. “O que sobrar da defesa e executiva não vai parar de
pé. É inviável economicamente a médio e longo prazo. Está se inviabilizando a
empresa tecnológica e economicamente”.
Ele é enfático ao afirmar
que o país está perdendo o setor mais avançado de alta tecnologia que já
desenvolveu.
“Além de ser uma grande
fabricante de aviões, a terceira maior do mundo e muito bem sucedida na área
dela, para dentro do Brasil, do ponto de vista tecnológico, ela é a maior
empresa da área tecnológica do país, quando falamos de alta tecnologia. Tem
empresas importantes como a Petrobras e outros setores, mas, em setor que
envolve alta tecnologia, é a única grande empresa de tecnologia com uma
inserção ativa no mundo.”
Segundo Herbert Claros,
trabalhador da Embraer e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José
dos Campos, o resultado do “acordo comercial” entre as empresas será negativo
para o desenvolvimento nacional como um todo.
“O nome traduz tudo que a
Boeing, na verdade, tem feito nos últimos anos: transformar uma empresa
brasileira, que os brasileiros construíram, em uma empresa norte-americana.
[Com a mudança de nome] Fica comprovado todas as denúncias que fizemos em relação à soberania
nacional. Nós entregamos o maior patrimônio da indústria tecnológica do nosso
país para os americanos”, denuncia.
“Nós vamos virar um
quintal de produção. Sendo que hoje produzimos e geramos tecnologia. A partir
do ITA [Instituto Tecnológico da Aeronáutica], das universidades públicas
federais do país. Isso vai acabar. E não vai ser daqui muito tempo. O próprio
nome já traduz tudo. Não respeitaram nem 50 anos de história da Embraer”,
lamenta o trabalhador, que já representou sua categoria no Conselho
Administrativo da empresa.
Herbert acredita que o
futuro dos trabalhadores da então estatal, assim como da produção da empresa é
incerto. Ele e outros colegas conheceram a Boeing nos Estados Unidos e
identificaram que a empresa que “coloca seus interesses acima de tudo”
e com uma postura anti-sindical muito forte.
“Nos últimos cinco anos,
a empresa demitiu 36 mil trabalhadores nos Estados Unidos. Uma empresa que tem
esse tipo de postura, não vai proteger os empregos no Brasil”, disse.
O sindicalista cita ainda
que devido a crise que a corporação vive atualmente, envolvendo os aviões do
modelo 737 Max, não haverá investimento no Brasil.
País sem Defesa
O coordenador do
Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp,
Marcos Barbieri Ferreira, compartilha da preocupação de Herbert com a soberania
do país. Na visão do especialista, que estuda o tema há mais de quinze anos, a
Embraer também é a principal empresa da indústria de Defesa do Brasil.
“Todos os projetos
grandes de defesa estão na mão da Embraer. O [avião] KC 390 que é de transporte,
o Gripen que é um caça, os satélites também são da Embraer. O projeto de
vigilância da Amazônia está com a Embraer, o projeto de fabricação de radares
também. Ela é estratégica do ponto de vista tecnológico e todas as decisões do
que vai ser produzido e de quando vai ser produzido no Brasil serão
decididas em Chicago, onde é a sede da Boeing ”, critica.
As informações são da repórter Lu Sudré
Edição de Aline Carrijo
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