segunda-feira, 9 de abril de 2018
Lula admite cumprir mandado de prisão, pega presidenciáveis não-petistas pela mão e sai de cena carregado pelos que o fizeram entrar nela
Por *José Roberto de Toledo
Em frente ao sindicato onde diz ter nascido e com um microfone na mão, Lula da Silva discursou como quem fala pela última vez. Voltou ao 1968 de quando se sindicalizou, passeou pelo 1978 de quando liderou greves que o empurraram para a notoriedade, rememorou a fundação do PT, comemorou sua Presidência e terminou tentando apontar um futuro sem ele para a esquerda em 2018. Depois saiu de cena, coreografada, carregado pelos militantes em meio a uma multidão. Lula perdeu o processo mas ganhou a imagem.
Mestre da cerimônia de sua própria despedida, o ex-presidente pegou pela mão, no alto do carro de som e diante de milhares de pessoas, não um político com mandato, nem sequer um petista, mas o líder de um movimento militante. Apresentou e beijou Guilherme Boulos, líder sem-teto, e pré-candidato a presidente pelo PSOL. Tentou fazer igual com Manuela D’Ávila, pré-candidata pelo PC do B, mas ao fazê-lo, chamou-a de “garota bonita”. Ambos têm menos de 40 anos e ficaram em destaque ao lado de Lula no palanque.
Dos petistas cotados para disputarem a Presidência em seu lugar, um não estava lá, outro ficou no fundo da cena, e o terceiro tem barba e cabelo brancos. A troca de bastão não se completou no partido. Preferido pela máquina do PT, o ex-governador baiano Jaques Wagner não apareceu na cena de despedida de Lula. Mãos cruzadas à frente do corpo, Fernando Haddad parecia tão encabulado no palanque quanto em sua derrotada campanha à reeleição como prefeito de São Paulo. Celso Amorim é diplomata.
| Depois saiu de cena, coreografada, carregado pelos militantes em meio a uma multidão. Lula perdeu o processo mas ganhou a imagem. |
Não chegou a ser uma autocrítica, mas poderia ter sido. As greves e ocupações que o Lula com microfone exaltou sábado pararam de acontecer com a frequência que ocorriam justamente após o Lula virar presidente. Ao mesmo tempo, a dedicação do PT voltou-se para a ocupação burocrática de Brasília – como é praxe acontecer com os movimentos políticos que chegam ao poder.
Ao dizer que cumpriria o mandado de prisão em vez do mandato presidencial, ao escolher dois jovens políticos não-petistas como símbolos de seu legado e ao dizer que virou uma ideia, Lula deixou a vida de candidato rumo à cadeia, mas ainda não parece disposto a entrar para a história. Ao abrir novas possibilidades em sua herança política, parece pretender comandar o processo de sua própria sucessão desde a cela em Curitiba. Não será fácil.
Ficará isolado, sem tevê nem comunicação permanente com o que acontece fora do prédio da Polícia Federal. Não se alimentará do contato com seus eleitores, não mais se informará no “chão de fábrica” para perceber para onde tende a opinião pública. Pode ser por alguns dias, por alguns meses ou por alguns anos.
Duas imagens sintetizam o sábado derradeiro do Lula candidato em São Bernardo do Campo. A primeira, messiânica, foi captada por um fotógrafo de 18 anos, nascido em Curitiba e radicado no Rio de Janeiro. Francisco Proner Ramos enquadrou Lula no meio de uma compacta massa humana sendo carregado nos ombros e com braços esticados em sua direção. Ramos fotografou o ex-presidente desde o alto do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Não se vê o prédio, só Lula no centro, e centenas de pessoas apertadas ao seu redor.
A outra imagem não é uma foto, mas um frame do vídeo da tevê dos Trabalhadores, que transmitiu o evento ao vivo. É a última vez que Lula aparece em cena. O ex-presidente destaca-se da multidão à sua volta por estar nos ombros de um militante. No instante anterior a desaparecer dentro do prédio do sindicato, Lula se volta para trás e acena com a mão esquerda, justamente a mão que se tornou sua marca registrada por faltar-lhe o dedo mínimo, perdido no torno onde trabalhava como metalúrgico.
Em ambas, aparece como líder de massas, mas na segunda é claro o sentido da despedida. Qual se revelará mais premonitória?
*Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji
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