A força poética de Fernando Atallaia se revela por meio de um lancinante apelo
a uma salvação do ser. Os dramas internos e as tragédias do cotidiano invadem
sua poesia e permanecem num vigilante estágio de alerta contra os destratos da
realidade. Há um grito pungente e nervoso para que se salve
dessas águas turvas. E só a poesia pode levá-lo a cais seguro.
Sua
poesia é um grito agônico contra as injustiças. Para conseguir ser
salvo, o poeta não invoca deuses inacessíveis, mas a ordinária semântica da
poesia e seu poder transformador. Em lugar de mitos dubitáveis, o poeta se vale
de um erotismo desbordante, mas nunca vulgar. E busca penetrar nos pântanos da
existência em busca da pureza escondida – um xadrez em que a beleza
se esconde nos itinerários das alcovas. A busca às vezes deletéria por um
amor que esteja despojado das mercadorias do mundo do capital se eleva
até um vislumbre que pode surgir dentro de tanto emaranhado de desfeitos:
um reluzente unguento que pacifique seus demônios interiores.
Ao inserir o universo do mundo pornô na sua poesia, Atallaia recoloca o exercício pleno da cidadania poética em outra plataforma: o mundo erodido e mercantilizado da pornografia e seus mitos diluem-se entre imagens deformadoras de outros corpos pouco mitificadas e derruídos por doenças e chagas. O resultado é positivo e o poeta cruza o espaço entre a sexualidade própria e a massificação erótica. Daí surge uma poesia erotizável, mas não vulgar; com denúncia ao comercial, mas sem deixar de produzir estesia. Mônica Mattos, Vivi Fernandes e Lara Stevens ingressam no universo mítico do autor e tornam-se personagens do seu imaginário.
Fernando
Atallaia, em Ode Triste para Amores Inacabados, busca figuras míticas
universais, rascunha o cotidiano e entrega-se ao coloquialismo. Há uma
voluptuosidade em buscar quase uma narratividade, o que não exclui poeticidade.
Há crueza, mas há amor. Há violência, mas há lirismo.
Há o perverso do mundo mecanizado, mas também perdão e “almas
dispostas que ainda pulam muros”.
Ronaldo
Costa Fernandes é Doutor em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB).
Ensaísta, poeta, romancista e crítico literário. Imortal da Academia
Maranhense de Letras, ganhou, entre outros prêmios o APCA(Associação Paulista
de Críticos de Arte); Casa de Las Américas e o Guimarães Rosa. Durante nove
anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em
Caracas. Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras, Costa
Fernandes é autor das seguintes obras: O Viúvo (Ed. LGE); Manual de
Tortura (Esquina da Palavra); A Ideologia do Personagem Brasileiro
(Editora UnB); A Máquina das Mãos(Ed. 7Letras), dentre muitos outros títulos.
Todo mundo no Maranhão e fora dele sabe que Fernando Atallaia é o maior poeta maranhense da Geração 90. Indiscutível.
ResponderExcluirCarlos Caio-IFMA