quinta-feira, 1 de março de 2018
13:28
| Postado por
Equipe Baluarte
|
Memória
Bairro da cidade de São Paulo
protagonizou maior greve da história
sindical brasileira
Moradores do bairro de Perus, na região noroeste da cidade
de São Paulo,
lutam para preservar a história da primeira grande
greve do movimento sindical brasileiro. Iniciada em 1962, a paralisação
durou sete anos e foi uma resposta de 3,5 mil operários
- conhecidos como Queixadas - ao não cumprimento de
direitos trabalhistas por parte dos proprietários da Fábrica de Cimento Portland Perus.
Em 1992, o prédio da antiga fábrica foi tombado como patrimônio
histórico
da cidade de São Paulo e, desde então, sofre com a
deterioração. O impasse vem sendo discutido pelos coletivos e movimentos do
bairro com o objetivo de ressignificar o espaço e
transformá-lo em um Centro de Lazer, Cultura e Memória
do Trabalhador.
Entre os dias 17 e 25 de fevereiro, diversas discussões e
atividades culturais ocorreram no bairro para celebrar a resistência
local e articular a construção do Centro de Memória. Para Regina Bortoto, neta de queixada e uma
das articuladoras do Movimento pela Reapropriação
da Fábrica de
Cimento de
Perus, esta iniciativa representaria um marco no processo de
construção da
história
dos trabalhadores da região.
![]() |
| Ato Artístico do Coletivo Cimento Perus |
"Quando você propõe estabelecer a memória,
normalmente quem escolhe é quem tem o poder para selecionar essa memória e
nunca é o
trabalhador. A importância de um lugar onde o trabalhador possa falar das suas histórias e memórias
seria como uma inversão [dessa condição]. Essa história não
pode ficar só para quem vivenciou, ela tem que ser transmitida
para as gerações futuras", afirma.
Em 2016, o Grupo
Pandora de Teatro já havia organizado a Ocupação
Artística Canhoba com
o intuito de resgatar a história dos Queixadas
através da
arte e cultura. Uma das idealizadoras da ocupação, Caroline Alves reforça a importância
de um ponto de cultura com histórias e memórias do bairro, o que
ela define como "um espaço convidativo para a população
periférica
se apropriar e ser protagonista".
Memória viva
Sebastião Silva de Souza, 84 anos, trabalhou na Fábrica de Cimento e foi um dos Queixadas. Seu Tião,
como é
conhecido, relembra que o interesse dos proprietários era só "produção e lucro"
e que a greve foi a única maneira de lutar por melhores condições de
trabalho. "Há necessidade de que o trabalhador seja reconhecido
como gente, porque ele ajuda e não deve obrigação
nenhuma ao patrão. Ele faz uma permuta: dá o
trabalho e recebe um salário por isso e nem sempre é um
salário
compensador".
Criada em 1926, a fábrica de Perus foi a primeira indústria
cimenteira de grande porte do Brasil. Após o fim da greve dos sete anos, em 1969, os
Queixadas receberam os salários atrasados e tiveram o direito de voltar ao
trabalho. As fraudes do antigo proprietário José João Abdalla levaram a fábrica à falência.
"Perus é um bairro que a luta existe a todo instante. A
gente não
descansa, tem sempre que estar pensando em se defender de alguma maneira",
afirma Seu Tião.
Para a história dos Queixadas não ser esquecida, o
Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de
Perus acaba de lançar folheto sobre a resistência dos trabalhadores grevistas que será distribuído em escolas da região. Como afirma Caroline
Alves:
"Para resumir em uma frase eu diria um dos provérbios
dos Queixadas, que é a firmeza permanente, o significado dele é você se
manter na luta, mas nunca usar isso de forma violenta".
As informações são da repórter Emilly
Dulce
Edição de Thalles Gomes
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