sábado, 12 de março de 2016
Sem a esquerda, não vai dar
Devemos sonhar com um país menos corrupto, mas só realizaremos esse sonho se tivermos um país plural
| Por Eugênio Bucci |
A ideia funesta de tentar cassar na Justiça o registro do Partido dos Trabalhadores, acalentada por fileiras incultas do PSDB, caiu por terra. Ainda bem. O projeto autoritário morreu logo, mas a verdade é que nunca deveria ter nascido. Tentar amputar diferenças ideológicas por meio de decretos judiciais é o tipo de ilusão que não apenas não resolve, como agrava as dificuldades da democracia brasileira, que já não são pequenas.
Chega a ser inacreditável que homens públicos com vivência no Parlamento, por mais conservadores que sejam, embarquem em fantasias tão obscurantistas. Partidos, os bons e os maus, refletem correntes de pensamento existentes na sociedade. Suprimir essa ou aquela sigla por medidas artificiais pode até mudar o espectro partidário, mas não muda a sociedade. Além de não solucionar, piora o deficit de representatividade. Piora tudo.
Somente o debate esclarecido e a disputa política, em um ambiente de liberdade plena, dão conta de superar os impasses que surgem no caminho. Qualquer outra saída que não passe pela livre expressão e pela livre associação (partidária, inclusive) é um flerte com regimes ditatoriais. Por isso, ainda bem que, graças a ponderações de tucanos mais sensatos, as falanges menos esclarecidas do PSDB sossegaram o facho.
O problema é que, aparentemente, as falanges sossegaram o facho apenas por enquanto. No fundo, não mudaram de ideia, só toparam fazer um recuo tático. Basta ver que a mentalidade de onde emergem esses despautérios continua histericamente atuante nos bate-bocas das redes sociais. A toda hora a gente lê, vê e ouve desaforos e xingamentos cujo mote é varrer o PT do sistema eleitoral brasileiro. Segundo esse fanatismo primaríssimo, a esquerda seria a origem da corrupção e de toda forma de aparelhamento do Estado. Daí que, em lugar de julgar e condenar indivíduos ou quadrilhas (de esquerda e de direita, tanto faz) pela prática de crimes previstos na legislação, os fanáticos creem que exterminar as organizações de esquerda, que seriam as únicas responsáveis pela roubalheira nacional, resolveria a parada.
Óbvio: os fanáticos, cegos de ódio, estão errados, doentiamente errados. Os fatos – todos os fatos – provam que eles estão estupidamente enganados. A história da corrupção no Brasil começa muito antes do surgimento da primeira agremiação anarquista ou socialista em nossas cidades. Aliás, a participação de grupos (que se diziam) de esquerda no desvio do Erário é uma novidade muito recente. Até outro dia, a subtração do dinheiro público no Estado era um monopólio da direita e das oligarquias mais retrógradas destas terras. Portanto, até hoje, se vista em perspectiva, a corrupção brasileira deve sua existência muito mais à direita do que à esquerda. Além disso, assim como nem todos os militantes de direita são ladrões, nem todos os de esquerda são salafrários. Mais óbvio, impossível.
Não é só aí que os fanáticos erram. Eles também erram quando se esquecem de que foi na esquerda, e não na direita, que as principais lideranças ainda em atividade no Brasil se formaram. Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Lula, Dilma, Ciro Gomes, Marina Silva e muitos outros aprenderam a fazer política fazendo oposição à ditadura militar (de direita) e frequentando organizações marxistas. Mesmo nomes que hoje são incensados por direitistas, como FHC e Serra, não seriam o que são sem a formação de esquerda. A maior “escola de quadros” da política brasileira tem sido a esquerda, para o bem e para o mal, não há como negar. Quem acalenta a fantasia de suprimir a esquerda por meio de atalhos jurídicos acalenta a fantasia de negar e falsificar a origem política das lideranças que aí estão.
Em síntese, supor que o Brasil vá melhorar a partir do extermínio burocrático de uma ideologia é um erro que adultera o passado (porque o problema da corrupção não tem sua origem nos anarquistas, socialistas ou nos comunistas do Brasil), o presente (porque boa parte dos melhores quadros da política nacional da atualidade vem de uma matriz de esquerda) e o futuro (porque alimenta a utopia maligna de que um país ceifado em seu âmago e em sua história política será um país “mais civilizado”).
Se querem mesmo um país melhor, os fanáticos devem, mais do que sossegar o facho, rever suas convicções e assimilar de uma vez por todas o que nunca deveriam ter negligenciado: liberdade partidária é fundamental. Podemos (e devemos) sonhar com um país menos corrupto, mas só realizaremos esse sonho se tivermos um país plural. E, sem a esquerda, não haverá pluralismo nem democracia.
Eugênio Bucci é jornalista, professor de Comunicação e colunista da Revista Época.
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