quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Cartas de Kafka a Felice Bauer, por Elias Canetti
Júlio Daio Borges
De toda a produção de Kafka, que a Companhia das Letras publicou em tradução primorosa de Modesto Carone, faltaram apenas os diários e as cartas. Perto de romances como O Processo, novelas como A Metamorfose e contos como Na Colônia Penal, as cartas e os diários podem soar menos importantes, mas não são. E uma amostra disso é a análise que Elias Canetti, romancista de Auto de Fé, faz da correspondência entre Kafka e sua noiva Felice Bauer, na colêtanea A Consciência das Palavras, editada agora pela Companhia de Bolso. O ensaio tem como subtítulo, justamente, "Cartas de Kafka a Felice", mas se denomina, mui apropriadamente, "O Outro Processo". Canetti, naturalmente, se refere àquele Processo (com letra maiúscula e em itálico), demonstrando, na sua argumentação, que a ideia da obra-prima se desenvolve ao longo do relacionamento entre Franz e Felice. Kafka a conhece por intermédio de Max Brod, seu amigo e futuro testamenteiro. (Aquele a quem, Kafka, no leito de morte, solicitou que ateasse fogo a suas obras. Borges diria, posteriormente, que se Kafka realmente quisesse dar fim a seu espólio, teria ele próprio queimado...) Enfim, Max era o jovem poeta da família Brod, de quem seus parentes sentiam orgulho, valorizando seus amigos escritores e sua literatura ― um acolhimento que Kafka, por exemplo, não encontrava em sua casa (vide a Carta ao Pai). Numa reunião nos Brod, Franz e Felice são apresentados e, através de cartas, estreitam relacionamento. Como raramente estariam na mesma cidade, o romance epistolar ganha força, ainda mais para alguém como Kafka. Isolado fanático, confessaria a Felice que não gostava de seus parentes não por serem, justamente, "parentes", nem por considerá-los pessoas "más", "senão simplesmente porque são os seres humanos que vivem mais perto de mim". Kafka era um escritor vocacional, um dos maiores do século XX, para quem "não há nunca suficiente solidão ao redor de quem escreve". Completando que "jamais o silêncio em torno de quem escreve será excessivo". E concluindo que "não pode jamais haver a nosso dispor o tempo adequado". Por meio desses trechos não é difícil imaginar que o romance entre Franz e Felice não iria prosperar, dada a incapacidade dele em se relacionar. Ainda Kafka: "Não posso viver em companhia de outras pessoas". Mesmo assim, decidem se casar e marcam o noivado. Um acidente de percurso, no entanto, põe tudo a perder: Grete Block, uma amiga de Felice, com quem Franz se envolve ― igualmente, de forma epistolar ―, e que, insegura, revela tudo à noiva (depois da solenidade). Kafka, após o evento social que, como misantropo, havia lhe custado tanto, acaba confrontado pela família de Felice, e o noivado é arruinado. Sobre o evento, anota no diário: "Estava atado como um criminoso. Se me tivessem atirado num canto, com autênticas correntes, rodeado por guardas, para que só assim avistasse o que acontecia, não teria sido pior. E [pensar que] isso eram meus esponsais!". O rompimento se dá em julho de 1914. Em agosto, O Processo tem sua redação iniciada. Canetti, aproximando os fatos, é categórico: "Logo no primeiro capítulo, o noivado converte-se na detenção". Já o "tribunal" ― da família de Felice, por quem Kafka se sentia condenado ― "ressurge no último capítulo, sob a forma de execução". E a história não poderia se manter fiel sem Grete Block, o fruto da discórdia, que é incluída no romance como a "senhorita Bürstner", por quem "K.", o famoso personagem, sente uma atração fatal. O mais estranho de tudo, porém, é que Franz e Felice, passado o devido tempo, voltam a se relacionar. Eclode a Primeira Guerra Mundial, Kafka quer participar dela, mas, como não está apto, faz renovados planos, a fim de que se unam após o término do confronto: "Nosso acordo, em poucas palavras: casamento depois do fim da guerra; alugar duas ou três peças num subúrbio de Berlim; deixar nas mãos de cada um de nós a solução de seus próprios problemas econômicos." Para quem conhece a história, nem é preciso dizer que o casamento não seguiu adiante. Os noivos desfrutariam de intimidade, antes das bodas, mas Kafka jamais se sentiria apto: "Creio realmente estar perdido para a convivência com seres humanos". Elias Canetti nos relembra que o autor de obras tão intrigantes conseguiu ser tão (ou mais) complicado do que as próprias, fascinando leitores até hoje (quase 100 anos depois). Resta-nos engrossar o coro para que Modesto Carone verta, para o nosso idioma, o que falta de Kafka: os diários e as cartas ;-)>>> A Consciência das Palavras
Júlio Daio Borges é editor.
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