quinta-feira, 28 de junho de 2018

São Roberto-Maranhão


Escalação completa do time de Dé: Maria Eduarda, Ana Paula, Ana Zilda, Ana Beatriz, Mateus, Matias, Maciel, Enedina, Regina, Gabriel e Paulo Vitor. Onze no total. Paulo Vitor é o mais novinho: chegou faz dez meses, 18 anos depois da mais velha, Maria Eduarda, que também ganhou menino faz pouco mais de um ano. Pois é: mãe e filha, por alguns meses, estiveram grávidas ao mesmo tempo.
– Quem ganhar primeiro cuida da outra – disse Dé na época.

Pois a primeira foi Maria Eduarda, com 17 anos de idade. A mãe pariu Paulo Vitor logo depois, aos 36. Tio e sobrinho meio que vão aprender a falar juntos.
-E por que, dona Filomena? – Porque cajá é fruta que só cai do pé quando tá madura. Não perde, não.
As Conceição Silva são família de parideiras: a mãe de Dé, a dona Filomena, teve 14. Onze vingaram – outro time. E uma vitória: no tempo de dona Filomena, não era tanto filho assim que restava vivo. Abortos mesmo foram dois, e um morreu de sarampo quando adolescente.
– O apelido da nossa família é “cajá” – revela a matriarca.
-E por que, dona Filomena?
– Porque cajá é fruta que só cai do pé quando tá madura. Não perde, não.

Dona Filomena é parideira e parteira também: já trouxe ao mundo quase duzentas crianças. Começou assim, do nada, quando faltou parteira bem na hora de uma das filhas dar à luz e Filomena foi lá socorrer. Parece que já sabia tudinho o que tinha que fazer.
– Eu tinha tido um bocado de filho, já fazia ideia de como era – ela diz, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

– Eu tinha tido um bocado de filho, já fazia ideia de como era – ela diz...
E isso que naquela época se partejava do modo mais cru possível: em casa, na cama, cortando com tesoura o cordão umbilical. Agora não: hoje as parteiras de São Roberto recebem luva e bisturi esterilizado. O povo lá da rua São Pedro, onde mora a família toda de Dé, nem vai no hospital: tá na hora de nascer, chama a dona Filomena. Foi assim que ela fez chorar pela primeira vez quase todos os netos. Inclusive o Paulo Vitor.

– Quando viemos, ela já tinha parido – diz Glauciane Leite Lima, enfermeira da Força Estadual de Saúde, entidade que já fez mais de 23 mil atendimentos só em São Roberto.

Taí um desafio da Força: manejar as parideiras da família Silva. Não que elas não se virem por conta própria, como sempre se viraram, mas sempre é bom manter o olho aberto: Dé – que na verdade se chama Artemisa – foi acompanhada bem de perto na gestação, já que fazia parte do grupo de risco, pela idade. Todo mês tinha visita da equipe, que ainda aproveitava para distribuir vermífugo para a meninada. Por fim, deu tudo certo, e a moça nem bem pariu já estava de pé, uma semana depois, cuidando dos filhos e da casa.

Desafio maior, aqui, é tratar de que não venha tanto menino ao mundo.
– Aumentou o número de adolescentes grávidas no município – comenta Glauciane.
Dona Filomena tenta explicar:

– Hoje o pai e a mãe liberam muito as pixote – que, no caso, é sinônimo de “mocinha”.
 O jeito é educar, e é por isso que a equipe da Força – complementada por iniciativas como a Carreta da Mulher e do Ônibus Lilás – percorre o município dando palestras e oficinas nas escolas sobre gravidez na adolescência, estimulando a ligadura das trompas de quem já teve muitos filhos e insistindo na distribuição de preservativos. Insistindo, porque o povo daqui não é lá muito chegado a usar.

  -E ainda tem vergonha de pegar quando a gente dá – acrescenta Glauciane.
Testes rápidos de DSTs também são parte da estratégia, e desse mal São Roberto felizmente está livre. Já segurar a multiplicação de são-robertenses é outra história. Ainda mais quando pertencem à família dos Conceição Silva.

E isso que naquela época se partejava do modo mais cru possível: em casa, na cama, cortando com tesoura o cordão umbilical. 
Veja Dé, que nem tem o marido por perto – de quando em quando ele vai para Goiás buscar trabalho e lá fica uns seis meses, um ano – e mesmo assim engravida toda vez que o homem volta para casa.
– Na última vez que o marido veio visitar, nasceu o Paulo Vitor – diz Glauciane.

Será assim na próxima visita? A enfermeira espera que não.

– Tem que ligar, né, Dé? – ela insiste, como há muito já vem insistindo.
Tem que ligar, né, Dé? – ela insiste, como há muito já vem insistindo.
Mas Dé não quer, sabe-se lá por que. Quando alguém toca no assunto, desconversa. Dona Filomena já ligou e acha que a filha tem que ligar também. Fez de tudo para convencer a mulher, agora é com Deus.
– E se ela fizer mais um, dona Filomena?
– Aí fica doze, né? – responde a matriarca, resignada.

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