quarta-feira, 11 de abril de 2018
“Eles [os jornais] ajudam a
estimular um cenário de escalada da violência
contra os jornalistas”, diz sindicalista
A violência contra profissionais de imprensa no exercício da função está no centro das preocupações de trabalhadores e
entidades representativas. Na semana passada, diante da prisão do ex-presidente Lula
(PT), o país registrou não só uma intensificação dos protestos de rua,
mas também novas agressões contra profissionais
que atuam na cobertura jornalística.
A fotógrafa free lancer Bárbara Cabral, que
trabalha em Brasília, foi uma das vítimas. Na última quinta-feira (5), ao chegar ao local
onde acompanharia uma manifestação, ela e a repórter com quem estava tiveram o carro da equipe
atacado por manifestantes.
“Fiquei bem calma na hora porque não estava acreditando no
que estava acontecendo. A gente conseguiu sair e foi pra delegacia. Depois a
gente descobriu que outros veículos foram enxotados de lá também. Meu sentimento é de chateação”, desabafa.
A fotógrafa conta que costuma cobrir manifestações sistematicamente desde
2013, quando houve um aumento dos protestos pelo país. Ela afirma que nunca
havia sido agredida durante o trabalho.
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| Em ato realizado no Rio de Janeiro em 2013, profissionais de imprensa protestam contra ataques durante cobertura. |
“O pessoal está muito nervoso com a situação política, então, eles não associam [o
profissional] a gente, e sim ao veículo, e isso é muito errado”, considera.
O presidente do Sindicato
dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), Paulo Zocchi, destaca que esse tipo
de confusão é comum entre
manifestantes dos diferentes espectros políticos.
“Todo mundo é livre pra protestar contra as empresas de
comunicação, mas o jornalista é um trabalhador. Ele não pode ser confundido com
as empresas e tem que ter o seu direito de trabalhar preservado”, sublinha.
Proteção
As ocorrências de agressões se multiplicaram pelo país nos últimos dias,
especialmente em São Bernardo do Campo (SP), que concentrou a cobertura da imprensa
relacionada ao caso do ex-presidente Lula.
O SJSP montou um esquema no final de semana
para prestar apoio aos trabalhadores ameaçados. Entre a manhã de sexta-feira (6) e a
noite de sábado (7), foram formalizadas
três denúncias, mas diversos
jornalistas relataram que foram hostilizados por manifestantes.
Os casos ocorreram com profissionais de
diferentes veículos, entre eles UOL,
Estadão, Globo, G1 e Rede TV.
Preocupado com a situação, o Sindicato agendou uma assembleia para esta quinta-feira (12) para
abordar o problema e discutir novas medidas de proteção ao exercício profissional.
Crítica do golpe de 2016, que depôs a presidenta eleita
Dilma Rousseff (PT), a entidade considera que a cobertura da grande imprensa no
Brasil tem caráter partidário e de perseguição política ao ex-presidente
Lula. Para o Sindicato, haveria ligação entre a linha editorial desses veículos e o contexto de
agressão aos jornalistas, que
piorou diante do acirramento das disputas políticas.
“Eles [os jornais] ajudam a estimular e a
criar um cenário marcado por uma
escalada da violência contra os jornalistas”, analisa Zocchi.
Histórico
Em 2016, os casos de violência explícita contra jornalistas
aumentaram 17,52% em relação ao ano anterior. Foram 161 ocorrências, sendo duas de assassinato. Outros 220
profissionais foram vítimas de algum tipo de violência no mesmo ano. Os dados são da Federação Nacional dos
Jornalistas (Fenaj).
Em 2017, foi verificada uma redução de 38,5% nos casos de
violência concreta. A
presidenta da Fenaj, Maria José Braga, afirma que a mudança se deu graças à atuação da Federação e dos diferentes
sindicatos, que levaram a questão da proteção aos profissionais para a mesa de negociação com as empresas.
Ela acrescenta que o investimento em denúncias, tanto no Brasil
quanto no Exterior, também teria contribuído para a redução.
“Isso, de certa forma, intimida os agressores.
O profissional também está mais cuidadoso, mais
preocupado com a sua segurança”, afirma.
As entidades representativas afirmam que os
profissionais que sofrerem algum tipo de agressão devem registrar o caso junto ao seu
sindicato para que sejam tomadas as medidas cabíveis.
As informações são da repórter Cristiane Sampaio
Edição de Juca Guimarães
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