sexta-feira, 20 de outubro de 2017
O que ninguém fala sobre a Princesa Isabel
Ensina-se nos livros escolares que a princesa Isabel foi uma
heroína nacional, a redentora que libertou os negros da escravidão. Neste
momento em que até se cogita a sua canonização, confira o que ninguém diz sobre
ela .
Ela não concedeu a alforria a um escravo tuberculoso, chamava
os seus serviçais de pretos e debochava dos abolicionistas mais combativos –
assim era a “Redentora”, hoje candidata à canonização.
Ensina-se nos livros escolares que a princesa Isabel
(1846-1921) foi uma heroína nacional, a redentora que sancionou a Lei Áurea em
13 de maio de 1888, libertando os negros da escravidão. No momento em que até
se cogita a sua canonização, o livro “O Castelo de Papel” (Rocco), da
historiadora Mary Del Priore, desfaz essa imagem de santa progressista. Com
base em documentos inéditos dos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB) e do Museu Imperial, em Petrópolis, Mary sacramenta o que
outros estudiosos suspeitavam: a herdeira do trono não defendia as causas
sociais nem se indignava contra os açoites recebidos pelos escravos. Era apenas
isso: uma mulher mais preocupada com a família e a sustentação da realeza.
Toda época tem limites no que diz respeito aos avanços
políticos, mas a omissão da princesa era flagrante. Em 1881, ou seja, quase uma
década antes da abolição, Isabel fingiu não ouvir os lamentos das senzalas ou
mesmo as vozes exaltadas dos púlpitos republicanos. Recém-chegada de uma viagem
à Europa em companhia de seu marido, o conde D’Eu, ela evitou o clamor que já
dominava as ruas do Rio de Janeiro e se refugiou na residência imperial na
região serrana, em Petrópolis. As cobranças, no entanto, eram feitas até por
aqueles de quem menos se esperava, caso de sua aia, Luisa de Barros Portugal, a
condessa de Barral, que cuidou de sua educação na juventude. A princesa
respondeu assim às reprimendas da velha senhora, com quem mantinha
correspondência: “Que demônio pode ter-lhe contado tantas coisas, querida?
São os horríveis artigos de José do Patrocínio? Se você não pode ignorá-los,
mostre que eles lhe são desagradáveis.” O deboche era endereçado ao
combativo abolicionista.
| Ensina-se nos livros escolares que a princesa Isabel foi uma heroína nacional, a redentora que libertou os negros da escravidão. |
A suposta generosidade da monarca não se comprovava na
prática. Sempre cercada de mucamas, o tratamento que dirigia aos descendentes
de uma raça pela qual ela teria lutado para emancipar não era nada lisonjeiro.
Já aos 18 anos, assim listou os seus escravos: “Marta, negrinha de quarto,
Ana de Souza, sua mãe, Francisco Cordeiro, preto do quarto, Maria d’Áustria,
mulher dele, Minervina, lavadeira, Conceição, Florinda e Maria d’Aleluia, engomadeiras.
José Luiz, preto músico, Antonio Sant’Ana, preto que me serviu algum tempo.”
Isabel era indiferente aos sofrimentos dos serviçais. Mary traz à luz o caso de
um escravo de sua residência, que, já velho e tuberculoso, teve de recorrer ao
imperador dom Pedro II, pai da governante, para conseguir a alforria.
Embora se colocasse como liberal, ela se mostrou irritada com
a decisão da Câmara dos Deputados que aprovara a Lei do Ventre Livre,
promulgada contra a sua vontade em 1871, dando liberdade aos filhos de escravos
nascidos a partir daquela data. As discussões na Câmara foram muito acaloradas
e os conservadores usaram de vários meios para impedir a aprovação da nova lei.
Mais preocupada em evitar a animosidade dos donos de terra que davam sustentação
à Coroa, Isabel qualificou a votação de precipitada. Escreveu ao pai: “O
espírito dos fazendeiros anda agitado.” Somente quando a situação se tornou
insustentável ela tomou da pena e oficializou a sua adesão ao abolicionismo. A
essa altura, o movimento já tinha conquistado grande parte da opinião pública e
a rebelião tinha se espalhado pelas senzalas.
Mary mostra que Isabel não tinha vocação para o reinado ou
uma clara preocupação pelos rumos políticos do País. Já no início dos estudos,
demonstrava pouco interesse por temas nacionais. Aos 25 anos, assumiu pela
primeira vez o trono como regente e depois confessou ao pai: “Quando entrei
na sala, fiquei abismada, cinco enormes pastas recheadas, algumas de uma
maneira monstruosa, estavam-me esperando.” Uma indisposição que vinha de
longa data. “Na documentação, percebe-se que os sentimentos do seu marido
pelo Brasil são muito mais visíveis e palpáveis do que os de Isabel”, disse
a historiadora. “Em sua correspondência, a palavra política aparece sempre
como sinônimo de coisa entediante. É vista como desconhecida e cansativa.”
Por Michel Alecrim, da
IstoÉ
Edição de Fernando Atallaia
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