quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Avançar
é reduzir a jornada de trabalho para 40 horas
A história mostra que as lutas dos trabalhadores são
longas e difíceis. Na Alemanha, a jornada já chegou a ser de 75 horas
semanais. Na Inglaterra, de 18 horas por dia para as mulheres. Na
Suécia, podia-se empregar meninos a partir de cinco anos. Foi somente no
início do século 20 que a jornada de 48 por semana começou a ser
instituída onde, hoje, os países são desenvolvidos
Por Clemente Ganz Lúcio
A história mostra que as lutas dos trabalhadores
são longas e difíceis. O processo civilizatório que eleva o padrão de
vida da sociedade como um todo conta com a participação determinante dos
trabalhadores. Eles inovaram, por meio dos sindicatos, em bandeiras de
interesse geral, como a democracia, a liberdade, a igualdade, os
direitos sociais em geral, criaram partidos e contribuíram para a
construção do Estado moderno. Fizeram muito.
Para os trabalhadores, lutar é a condição para
viver. Por isso, criam os sindicatos, um solidário instrumento de luta.
Reduzir a jornada de trabalho é uma dessas lutas que
nos acompanha desde a origem do sindicalismo. Exemplos não faltam. Entre
1850 e 1870, a jornada média na Alemanha era de 75 horas (se uma pessoa
trabalha 60 e outra, 90 horas, a média dá 75). A média encobre muitas
desigualdades! Na Inglaterra, foi o Factory Act que, em 1844, reduziu a
jornada feminina de mais de 18 para 12 horas diárias.
| Famosa foto de trabalhadores em construção de arranha-céu em Manhattan, Nova York (EUA) |
Um anúncio publicado em 1813 por um fabricante de
algodão nos Estados Unidos dizia: “Cotton Factory procura algumas
famílias sóbrias e industriosas, que tenham pelo menos cinco filhos
maiores de oito anos”. Estima-se que, em 1900, havia 1,7 milhão de
crianças com menos de 16 anos trabalhando nos Estados Unidos, mais do
que a totalidade dos membros da AFL (American Federation of Labour), o
maior sindicato do país.
Na Suécia, podia-se empregar meninos a partir de
cinco anos, procedimento generalizado nos países da Europa no século
XIX. Os exemplos e fatos se multiplicam e estão documentados por
inúmeros cientistas sociais, economistas e historiadores.
A luta é longa! Foi somente no início do século XX
que a jornada de 8 horas diárias ou 48 horas por semana começou a ser
instituída onde, hoje, os países são desenvolvidos.
Educação, qualificação e tecnologia, reunidas nas
indústrias nas cidades nascentes, fizeram a produtividade do trabalho
crescer espetacularmente. No último século, a produtividade cresceu,
enquanto a jornada de trabalho era reduzida!
Mas as máquinas passaram a queimar os postos de
trabalho e a luta para que todos tenham emprego ganhou vigor, renovando
ainda mais as ações pela redução da jornada de trabalho. Trabalhar menos
para que todos tenham empregos. Trabalhar menos para ganhar qualidade
de vida, para conviver com a família e os amigos, estudar, praticar
esportes, ver um filme, ir ao teatro, cantar, dançar, brincar ou,
simplesmente, não fazer nada, ganhou centralidade na vida sindical e na
luta dos trabalhadores.
O recente ato falho do presidente da Confederação
Nacional da Indústria (CNI), propondo jornada de 80 horas semanais, em
uma reunião que tratava de inovação, atropela a história e achincalha a
utopia de uma sociedade justa. Mas, de maneira dialética, nos faz
relembrar nossa história e nos provoca e convoca a protagonizar novos
avanços.
Inovar hoje é promover um tipo de dinâmica
econômica na qual todos tenham empregos de qualidade e bons salários,
para produzir o que a sociedade precisa para ter bem-estar e qualidade
de vida.
Inovar hoje é distribuir o produto social, promovendo igualdade de oportunidades e condições.
Inovar hoje é reduzir a jornada de trabalho para 40 horas.
Os trabalhadores veem longe e lutam sempre. Está na hora de tentar novamente!
Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social
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