quinta-feira, 17 de junho de 2021

O mundo tinha enorme respeito pelo carismático líder político africano. Mas, sob a sua Presidência, o povo...

O mundo tinha enorme respeito pelo carismático líder político africano. Mas, sob a sua Presidência, o povo sofreu a corrupção, pobreza e um regime autoritário de partido único. Kenneth Kaunda morreu hoje, aos 97 anos.

No dia 24 de outubro de 1964, foi hasteada a nova bandeira verde-vermelha-negro-laranja da Zâmbia na capital, Lusaka, a 24 de outubro de 1964. O pai da independência e da nação, Kenneth Kaunda, assumiu a Presidência do país, apesar dos seus pais serem oriundos do vizinho Malawi. O seu progenitor mudara-se para a Zâmbia, na altura ainda uma colónia britânica, como missionário protestante. Foi aqui que Kaunda nasceu, em 1924.

O mundo tinha enorme respeito pelo carismático líder político africano. Mas, sob a sua Presidência, o povo sofreu a corrupção, pobreza e um regime autoritário de partido único.
O filho do pastor começou por ser professor. Tratava-se de uma profissão de grande prestígio para um africano na era colonial. Todas as outras funções mais elevadas, quer na administração, quer na economia privada, estavam reservadas aos brancos. Kaunda rejeita estes limites impostos por fora. Começa então a envolver-se na política. Foi preso várias vezes. Finalmente, assumiu a liderança do movimento pela independência da Zâmbia. O seu Partido Unido para a Independência Nacional ganha a maioria absoluta nas primeiras eleições parlamentares de 1964.

O prestígio de Kaunda cresce com o seu envolvimento como mediador em numerosas crises na região. O líder zambiano procura o diálogo com o Governo de...
Mas os problemas não acabaram com o fim do domínio britânico. "Considerando os desafios que tivemos de enfrentar, é um milagre ainda sermos uma nação", disse Kaunda, mais tarde, numa entrevista. Kaunda assumiu a liderança de um país com 75 grupos étnicos. E, para além das fronteiras traçadas pelas potências coloniais, nada une estas etnias. Dos três milhões e meio de habitantes, apenas uma centena tem formação académica. A grande maioria vive na extrema pobreza.

Do humanismo zambiano ao Estado de partido único

Ainda assim, Kaunda conseguiu manter a união nacional. Tal como fizeram os fundadores do Gana, Kwame Nkrumah, e da Tanzânia, Julius Nyerere, o Presidente inventou uma filosofia pensada para unir a sociedade. O "humanismo zambiano" é uma mistura de valores cristãos, tradições africanas e princípios orientadores socialistas. "O homem não deve viver só de pão, mas é isso que as pessoas fazem hoje em dia. É por isso que não temos paz, porque as pessoas só lutam por coisas materiais, mas esquecem a espiritualidade", dizia Kaunda. 

A 24 DE OUTUBRO DE 1964 Hasteada a nova bandeira verde-vermelha-negro-laranja da Zâmbia na capital, Lusaka. 
O carismático chefe de Estado depressa ganhou o respeito global. "Foi sempre um homem simples sem ambições de ser venerado", afirmou o missionário católico Friedrich Stenger, entretanto falecido, que viveu durante muito tempo na Zâmbia.

O prestígio de Kaunda cresce com o seu envolvimento como mediador em numerosas crises na região. O líder zambiano procura o diálogo com o Governo de apartheid na África do Sul, a fim de resolver pacificamente a situação no país vizinho. Envolve-se também como mediador na guerra civil angolana. Ao mesmo tempo, apoia os movimentos de libertação namibiano SWAPO e ZAPU, no Zimbabué. "As massas africanas nestes países querem participar no poder. Os governos das minorias usam da força para as impedir. É ilusório esperar que as populações fiquem sossegadas durante muitos mais anos", disse Kaunda, na altura.

MÉTODOS DRACONIANOS Aos poucos Kaunda transforma o seu país num Estado monopartidário. E agarra-se ao poder. A polícia e os...
Com o passar dos anos, surge uma outra face do respeitado líder africano. Tal como outros fundadores de nações africanas, aos poucos Kaunda transforma o seu país num Estado monopartidário. E agarra-se ao poder. A polícia e os serviços secretos utilizam métodos draconianos contra os seus adversários políticos, e muitos acabam na prisão.

Alegria pelo fim da era Kaunda

As tensões no país aumentam. Graças aos seus enormes depósitos de cobre, a Zâmbia é, na realidade, rica. Kaunda nacionaliza as minas. Mas, no final da década de 1970, os preços nos mercados mundiais entram em colapso. As importações também são cada vez mais caras: a Zâmbia não tem acesso ao mar e as guerras civis na região vedam muitas vias de transporte.

A corrupção crescente e a ineficiência gritante das empresas estatais agravam o fraco desempenho económico. Começam a faltar bens essenciais à população. Kaunda rejeita qualquer responsabilidade pessoal. "Ganhamos pouco com nossos produtos nos mercados mundiais. Mas pagamos preços excessivos por tudo o que importamos", queixou-se Kaunda em reportagem. 

REPRESSÃO PELO EXÉRCITO A população começa a perder a confiança no seu líder. Em 1986, dão-se motins sangrentos, que Kaunda manda...
A população começa a perder a confiança no seu líder. Em 1986, dão-se motins sangrentos, que Kaunda manda reprimir pelo exército.

Mas a sociedade civil e os sindicatos não calam as suas reivindicações de eleições livres. Kaunda concorda e perde as eleições de 1991. "A alegria no país foi grande", recorda o missionário Stenger.

Retirada da política

No fim da era Kaunda, a Zâmbia continua a ser um dos países mais pobres e endividados do mundo. O novo Governo vira-se contra o pai da nação, declarando que Kaunda é estrangeiro, porque os seus pais vieram do Malawi. Só protestos maciços impedem as autoridades de deportar o ex-Presidente. Em 1996, Kaunda anuncia que pretende concorrer novamente à presidência. O seu sucessor, Frederick Chiluba, recorre a um truque para o impedir: a constituição é alterada de modo a só permitir candidaturas de políticos cujos pais nasceram na Zâmbia.

A constituição é alterada de modo a só permitir candidaturas de políticos cujos pais nasceram na Zâmbia.
Kaunda retira-se da política para se dedicar à sua fundação, que luta contra a epidemia de SIDA. Em 1987, o Presidente admitira que o seu filho tinha morrido do vírus, embora a doença na altura ainda fosse um tabu em África. Antes da sua morte, ocasionalmente o estadista dava entrevistas. Mas passou os últimos anos da sua vida a viver modestamente com a sua mulher na capital, Lusaka. 


DW

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