domingo, 11 de fevereiro de 2018

“Não são zumbis, eles gostam de dançar e tocam muito bem”, afirma organizador

A região conhecida como Cracolândia, na zona central de São Paulo (SP), é um dos lugares tidos como mais tristes e perigosos da capital. Nesta sexta-feira (9), no entanto, as pessoas que passaram pelo fluxo, atualmente localizado entre a Alameda Cleveland e Rua Helvétia, não tiveram essa impressão. Confete, serpentina, e muito glitter enchiam de cores o mesmo chão onde, minutos antes, caixas de papelão exibiam pedras de crack e cachimbos.

Foi a quarta edição do Blocolândia, o bloco de carnaval dos trabalhadores, usuários e militantes da Cracolândia. Criado em 2015, o bloco se tornou uma das atividades mais esperadas pelos usuários, e uma importante forma de reinserção social através da cultura e do lazer.

Foi a quarta edição do Blocolândia, o bloco de carnaval dos trabalhadores, usuários e militantes.
A usuária Elisângela Eleotéria da Silva, por exemplo, era um dos maiores destaques do bloco. Vestida com um grande enfeite vermelho na cabeça, e com glitter colorido espelhado por todo seu corpo, ela assumiu a função de animadora e decoradora da festa, borrifando perfume de um pequeno vidro marrom em todos os foliões, e subindo na caminhonete vermelha, que serviu de carro de som, para entoar marchinhas.

"Esse é o segundo ano que venho. Eu acho maravilhoso, é a minha família, olha! Não é demais? É o fluxo, a escola da samba da Cracolândia, as pessoas param para nós porque somos os melhores. O pessoal ama, adora", contou Elisângela, acrescentando que além do "bloquinho do fluxo", pretende ir apenas no ensaio da Escola de Samba Vai-Vai, também no centro da capital.

A bateria do bloco foi improvisada com instrumentos emprestados por outros blocos de carnaval. Parte dos percussionistas, formada pelos próprios usuários, frequenta as oficinas da bateria Coração Valente, do programa Recomeço do Governo do Estado. Os versos da marchinha principal do bloco, escrita com colaboração dos usuários, ressalta a ocupação positiva da rua, e critica o preconceito que sofrem: "Não sou escória / Não sou zumbi / Cidade inglória / Ouve minha história / Não vem tirar meu povo daqui".

A usuária Elisângela Eleotéria da Silva, por exemplo, era um dos maiores destaques do bloco. Vestida com um grande enfeite vermelho na cabeça, e com glitter colorido espelhado por todo seu corpo, ela assumiu a função de animadora e decoradora da festa.

A foliã Felipa Drumossi, ex-dependente química e atualmente desempregada, vestia uma maquiagem feita com lantejoulas prateadas e um pequeno chapéu de bolinhas brancas. Ela afirma que considera a iniciativa muito importante para o processo de recuperação dos usuários.

"Aqui geralmente é uma tristeza, são pessoas que brigam com a família, que buscam esconder seus problemas através das drogas. A polícia vem aqui só oprimir as pessoas, tacar bombas. Tem que ter outro olhar em cima disso, a gente precisa de mais carinho, mais amor, mais diversão, porque querendo ou não isso é uma doença. Então é muito importante verem que aqui não é violência, não é o que a mídia mostra, aqui tem gente. Quando tem esse bloco a gente se sente acolhido, protegido", disse.

Orgulhosa, Felipa conta que já esteve presente nas duas edições anteriores do bloco, mas que está mais contente nesta edição porque há três meses conseguiu alugar um apartamento e "reconquistar sua autonomia". "No ano passado e retrasado vim como dependente, e dessa vez como ex-dependente química. Uma vitória", contou, sorridente e já voltando a sambar.

O Blocolândia é organizado pelo Coletivo Sem Ternos, uma iniciativa que tem como objetivo permitir a troca entre os trabalhadores e usuários da região, adotando a perspectiva da "Redução de Danos", uma abordagem que parte do princípio de que não deve haver uma imediata e obrigatória extinção do uso de drogas na sociedade, mas formulas práticas que reduzam os danos para cada usuário.

A bateria do bloco foi improvisada com instrumentos emprestados por outros blocos de carnaval. Parte dos percussionistas, formada pelos próprios usuários, frequenta as oficinas da bateria Coração Valente, do programa Recomeço...

De acordo com Tamara Collier, servidora pública da saúde e integrante do programa de redução de danos de HIV/DST, que trabalha na região da Cracolândia há 10 anos, o "Blocolândia" pode ser considerado uma forma importante de redução de danos.

"Este bloco, na verdade, é uma possibilidade de confraternização, da gente estar prestando uma assistência cultural, e eles poderem reviver dentro da cultura deles a perspectiva do carnaval, usando a cultura como redução de danos, para eles terem uma outra possibilidade de vivência da cidade que não seja o morar na rua e o uso de drogas", afirmou.

Já para Leôncio Nascimento, articulador de redes da organização "É de Lei" e um dos responsáveis pelo acontecimento do bloco, a ideia é uma forma de resistência contra a imagem de violência criada pela mídia para caracterizar a região.

"O Blocolândia surgiu exatamente para a gente poder trazer uma outra perspectiva que não a de sempre debater a questão da violência. Essa região aqui, antes de qualquer coisa, é uma comunidade. Então atividades de lazer e recreação são importantes para a gente fortalecer a proposta da redução de danos. Quando olhamos os usuários participando de atividades desse tipo, durante esses momentos eles não estão fazendo uso de sua substância de escolha, não estão dentro daquele contexto de uso problemático. Estão se divertindo", explicou.

“Não são zumbis, eles gostam de dançar e tocam muito bem”.

De acordo Raphael Escobar, integrante da organização Craco Resiste e também organizador do bloco, o objetivo principal do evento é mostrar que na região não existe apenas o uso problemático do crack. "Tem muita coisa aqui, tem muita vida. A galera não é só zumbi que fica na rua, eles gostam de sambar, sabem tocar muito bem, e sempre me mandam mensagens perguntando do bloco", afirmou.

No entanto, Escobar conta que a realização do bloco vem se tornando cada vez mais complicada. "Nos últimos dois anos têm sido mais difícil acontecer. Fica difícil quando tem policial todo dia no território, porque não dá para fazer fantasias na rua se a gente toma bomba, se uma galera fica internada, presa, e você não sabe onde eles estão", criticou.

 As informações são da repórter Júlia Dolce
 Edição de Fernando Atallaia e Simone Freire

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