quinta-feira, 6 de abril de 2017

Afirmação é rechaçada por 60% dos cariocas
Maioria também considera que polícia não deve atirar, mesmo se a pessoa estiver fugindo.

Na semana em que dois policiais foram acusados de executar suspeitos de tráfico de drogas na periferia do Rio de Janeiro, a pesquisa "Olho por olho" vem revelar o que pensam os cariocas sobre temas como violência policial, direitos humanos e maioridade penal.

Bandido bom é bandido morto? Os pesquisadores do Centro de Estudos em Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, foram a campo fazer essa pergunta para os moradores de diferentes regiões da cidade. O que descobriram? Que alma carioca é uma metamorfose ambulante.

O primeiro aspecto a ser destacado em relação ao resultado da pesquisa é que 60% dos cariocas discordam dessa afirmação. Já 37% concordam com o bordão, que tem grande adesão nas classes mais empobrecidas. O estudo aponta ainda que homens tendem a concordar mais com a frase do que mulheres e que no campo religioso, os católicos se mostraram mais conservadores do que os evangélicos nesse aspecto. No cenário nacional, o percentual de pessoas que acreditam nessa frase é de 57%, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2015. Nesse sentido, os cariocas são mais progressistas que a média nacional.

70% da população do Rio de Janeiro afirma que PM não pode ter carta branca para matar.
Quando os pesquisadores perguntaram: “prender ou matar?” quando alguém assalta ou é pego vendendo drogas, 84% dos entrevistados afirmaram que devem ser presos e não mortos. Quando a pesquisa trata de homem que batem em mulher ou de policiais que agem fora da lei, o índice sobe para 88% entre os que acreditam que esse tipo de criminoso deveria ser preso e 10% dos entrevistados afirmam que deveria morrer.

A maioria também afirmou que a polícia não deve atirar, mesmo quando a pessoa estiver fugindo. Essa é uma verdade para 68% dos pesquisados. Para 71% o policial não deve atirar nem se for agredido fisicamente. A polícia só pode atirar se uma pessoa estiver apontando a arma para ele, afirmam 68%. Para 69%, os policiais não sabem diferenciar trabalhador de bandido.

No entanto, a pesquisa também revelou que os cariocas rejeitam os direitos humanos e são a favor da maioridade penal para adolescentes acima de 16 anos. Um total de 78% acreditam que “direitos humanos atrapalham o combate à criminalidade e 86% são a favor da redução da maioridade penal. Contudo, o índice ficou abaixo da média nacional, na questão da maioridade penal, que tem 89% de aprovação, como apontam os dados do estudo da Fundação Perseu Abramo de 2015.


Análise


Algumas respostas parecem contraditórias se olhadas no plano geral, mas quando a pesquisa é vista de perto, com um olhar mais cuidadoso, as coisas ficam mais claras e mostra aspectos positivos.

Uma das coordenadoras do estudo explica alguns aspectos dessas contradições. “A pesquisa revela que a opinião dos cariocas sobre esses diversos temas não está consolidada. 37% da população apoiando o bordão ‘bandido bom é bandido morto’ é preocupante, mas quando a gente pergunta se a polícia devia ter carta branca para matar, se isso ajudaria a combater a criminalidade, 70% das pessoas dizem que não. Percebemos que quando a gente aponta temas específicos de violações, as pessoas não apoiam”, observa a socióloga, professora e pesquisadora Julita Lemgruber. Os professores Ignácio Cano e Leonarda Musumeci também fazem parte da coordenação da pesquisa.

Portanto, o que revela o estudo é que quando se trata de temas mais amplos, longe da realidade das pessoas comuns e de conceitos disputados ideologicamente, as pessoas têm posições mais conservadoras. Porém, quando parte para a realidade concreta, onde os problemas são mais visíveis e sentidos em seu cotidiano, nesses casos a população tem uma posição mais progressista e humanizada.

Para Julita Lemgruber, isso demonstra ainda a dificuldade dos defensores de direitos humanos para esclarecer a população de que não há incompatibilidade entre direitos e segurança pública. “Na verdade esses conceitos deveriam ser complementares”, defende. “Mas houve, durante sucessivos governos, uma má condução do tema, causando uma ruptura entre as duas ideias, o que é extremamente prejudicial para a sociedade”, destaca.
Socióloga respeitada no meio acadêmico e jurídico, Julita Lemgruber ficou conhecida por ter sido a primeira mulher diretora-geral do sistema penitenciário do Estado do Rio de Janeiro durante o governado de Leonel Brizola (entre 1991 e 1994). Hoje é uma das mais prestigiadas críticas da guerra às drogas.

Já o ex coronel da polícia militar do Rio de Janeiro, Ibis Pereira, um dos colaboradores da pesquisa, afirma que é preciso esclarecer e disputar esses conceitos junto à população. “O mais me surpreendeu foi que a ideia de que ‘bandido bom é bandido morto’ encontre adesão entre as pessoas das camadas mais pobres, justamente a camada que mais sofre com a violência. Isso me parece que é um recado para a nossa democracia. Temos um grande desafio pela frente. A única coisa que pode nos tirar dessa triste realidade é aprofundar e radicalizar a democracia”, apontou o ex coronel, que é graduado em direto e tem mestrado em História, pela Política da Universidade do Rio de Janeiro (PUC-Rio).


Sobre a pesquisa


O estudo"Olho por olho", realizado pela Universidade Candido Mendes, teve o apoio da Ford Foundation e da Open Society Foundations. A pesquisa teve como base a aplicação de questionários entre março e abril de 2016 a uma amostra aleatória de 2.353 pessoas, representativa da população do município do Rio de Janeiro com 16 anos ou mais de idade, em pontos de fluxo da cidade.

Além disso, foram realizados grupos focais exploratórios com participantes de diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade, moradores e não moradores de favelas e entrevistas em profundidade com nove especialistas de diversas áreas profissionais. Os resultados completos da pesquisa estão disponíveis no site do Centro de Estudos em Segurança e Cidadania.


As informações são da repórter Fania Rodrigues
Edição de Vanessa Martina Silva
Pós edição de Fernando Atallaia

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