sábado, 25 de março de 2017

Modelo chapliniano de produção de carnes impõe uma reflexão séria

 

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Por João Paulo Cunha 

A operação Carne Fraca da Polícia Federal tem recebido atenção de todos os lados. Há os que condenam, os que aprovam e os que ponderam. Algumas certezas vão ficando evidentes, como a existência de uma rede de corrupção que parte dos capitães do agronegócio e chega ao governo. Ou os objetivos políticos da PF, em sua disputa interna por protagonismo que atropela procedimentos técnicos à custa de prejuízos irreparáveis no mercado interno e externo.

Assim como foi feito com a Petrobras e as grandes empreiteiras, destrói-se agora, com o argumento do combate à corrupção, a excelência brasileira em setor de ponta da economia, liquefazendo empregos e aprofundando a recessão. É possível até mesmo identificar a indisfarçada mudança de rota da imprensa, do sensacionalismo irresponsável do primeiro momento à leniência interessada no mercado da propaganda estimulado com a crise.

No entanto, alguns aspectos decorrentes da crise em torno do mercado da carne industrializada estão sendo deixados de lado. A reação da sociedade e o sentido econômico em torno da questão, por um lado, abrem os olhos para interesses e arranjos que precisam ser entendidos e enfrentados. No entanto, por outro viés, talvez a política e os negócios funcionem como um véu que encobre aspectos mais filosóficos e comportamentais. Há um inegável mal-estar nas imagens que mostram animais como peças numa linha de montagem.

A operação Carne Fraca da Polícia Federal tem recebido atenção de todos os lados.
De tal forma estamos acostumados com o padrão alimentar industrial, que não causa estranheza, por exemplo, falar em carne industrializada. De certa maneira, é possível ver nessa expressão quase uma contradição: se é carne, é natural; se é industrializada, deixou de ser carne. Mesmo assim, com inegável orgulho e senso estético higienista, os frigoríficos e seus empregados assepticamente de branco, são apresentados aos nossos olhos como algo que faz parte da mais natural forma de produção de alimentos.

Ficam de fora dessas imagens muita coisa. O sofrimento dos animais, na casa das dezenas de milhões, e os abates violentos – em muitos casos o sangue precisa ser retirado com o animal ainda vivo, ainda que privado tecnicamente dos sentidos. Ou a utilização de elementos químicos permitidos para conservação e sanidade. Sem falar do estímulo ao uso da proteína animal como principal fonte alimentar, incentivando a ocupação de grandes áreas, que poderiam ser utilizadas para outras culturas e outro modelo alimentar. Sobretudo de pequenas propriedades com manejo familiar e adaptadas ao modo de vida de cada região.

Por que não propor, a partir do impasse desse modelo quase chapliniano (tempos modernos?) de produção de carnes em todos os seus formatos e cortes, uma reflexão séria sobre o vegetarianismo, o veganismo, a agricultura familiar, a segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental, o respeito aos animais e a reforma agrária? A linha de montagem das picanhas e linguiças é uma síntese de várias escolhas, a maioria delas nem um pouco naturais.

A carne que sai dos grandes frigoríficos reafirma alguns problemas estruturais da economia. Como a concentração econômica, o latifúndio como território privilegiado de produção, a exploração do trabalho e a diminuição dos empregos (da estrutura familiar para o individualismo fordista). Sem falar no estímulo ao monopólio e a inclinação aos desejos do mercado externo, sem que consideração com as demandas locais. As grandes empresas se orgulham do requinte de lançar mão de religiosos de várias confissões para atestar seus ritos de abate e assim chegar à mesa estrangeira sem pecados de origem.

Não é um acaso que a primeira medida do presidente não eleito, depois de instalada a crise, tenha sido ir para restaurante de luxo oferecer carne aos comensais estrangeiros. Longe de ser uma mensagem aos brasileiros, foi um gesto de sabujice ao mercado internacional, não um ato de altivez. 

Mesmo porque, tivesse ele autoridade, a situação não chegaria à churrascaria. Há algo de incômodo na imagem de Temer encarando a carne no espeto. Parece que, como um naco de alcatra, ele também estava sendo servido na mesa de muitos interesses, dos países importadores aos delegados da Polícia Federal, passando pelos ruralistas indignados.

Sabemos que não podemos viver sem democracia, sem instituições fortes e sem justiça social. Mas desconfio que podemos viver sem carne. Às vezes a maior revolução está à espera do momento certo para se revelar.

 
João Paulo Cunha é jornalista e colunista permanente do BDB/MG

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